Uma pesquisa publicada no PR Daily pelo professor Bo Breuklander, da Universidade de Tampa, mapeou o principal gargalo de equipes de comunicação que tentam incorporar IA ao cotidiano: o problema não é a ferramenta. É a inconsistência de quem a usa. Equipes com acesso às mesmas plataformas, aos mesmos treinamentos e ao mesmo orçamento chegam a resultados radicalmente diferentes. O motivo? Cada profissional usa IA por conta própria, sem processo compartilhado, sem critério comum, sem conexão com métricas de negócio.
A lacuna que ninguém quer admitir O estudo identificou o que Breuklander chama de "lacuna de confiança": há uma diferença expressiva entre o quanto os profissionais dizem se sentir confortáveis com IA e o quanto conseguem aplicar, de fato, no trabalho real. O padrão é previsível — e preocupante. Profissionais mais experientes tendem a superestimar sua competência. Os menos experientes, a subestimar. O resultado aparece na entrega: qualidade irregular dentro da mesma equipe, no mesmo projeto, para o mesmo cliente. Nas palavras dos próprios líderes ouvidos pela pesquisa: "Temos muito mais desafios do que esperávamos" e "há pressão para crescer, mas não conseguimos acompanhar o ritmo."
O diagnóstico real Prompts aleatórios. Experimentação em silos. Nenhuma governança. Nenhum critério claro sobre o que pode ou não ser inserido numa ferramenta de IA. Nenhum processo para validar os outputs antes de entregar ao cliente ou ao superior. Esse é o cenário mais comum em equipes de comunicação hoje — inclusive em assessorias, agências e núcleos de comunicação de governo. E o que Breuklander deixa claro é que a solução não é comprar mais tecnologia. É alinhar operação.
O que funciona, na prática A pesquisa aponta três movimentos concretos para quem quer sair do caos:
- Escolha um fluxo. Mapeie um único processo onde a IA já pode atuar com segurança — monitoramento de crise, resumo de cobertura de imprensa, briefing para executivo. Comece por aí, não por tudo ao mesmo tempo.
- Crie guardrails simples. Uma página. Ferramentas aprovadas. O que não inserir (dados sensíveis, informações de cliente não validadas). Como revisar o que a IA produz antes de usar.
- Formalize campeões internos. Identifique quem já usa IA bem na equipe e crie uma rotina mensal de compartilhamento de casos reais. Conhecimento que fica na cabeça de uma pessoa não escala.
Por que isso importa agora A ausência de governança de IA em equipes de comunicação está sendo classificada pela pesquisa como risco de reputação — não apenas de eficiência operacional. Para quem assessora políticos, porta-vozes ou executivos de alto nível, isso tem peso imediato. Uma resposta gerada por IA sem critério, enviada sem revisão, num momento de crise, não é erro técnico. É falha estratégica com consequência pública. O argumento que começa a prevalecer nas reuniões executivas não é mais "use IA". É "use IA de forma consistente, com processos e governança". Muito mais sofisticado. E muito mais difícil de rejeitar.
